No cume de uma montanha alta havia uma pedra. E na borda da pedra havia um floco de neve. A neve olhou para o universo em torno e pôs-se a pensar consigo mesma:

– As pessoas devem achar que sou convencida e presunçosa, e é verdade! Como pode um pedacinho de neve, um mero floco de neve, como eu, permanecer aqui no alto sem sentir vergonha? Qualquer pessoa que olhe para esta montanha pode ver que todo o resto da neve está embaixo. Um pequenino floco de neve, como eu, não tem direito a alturas tão vertiginosas, e chego a merecer que o sol faça comigo o mesmo que fez ontem com meus companheiros, derretendo-me com um simples olhar. Mas vou escapar í justa ira do sol descendo para um ní­vel mais apropriado para alguém tão pequeno como eu.

Ao dizer isto, o pequenino floco de neve, rí­gido de frio, atirou-se do alto da pedra e rolou para baixo do cume da montanha. Porém, quanto mais rolava, maior se tornava. Em breve, transformou-se numa grande bola de neve e depois em uma avalanche. Finalmente parou numa colina, e a avalanche era tão grande quanto a colina que ficava por baixo dela.
E por isso, quando chegou o verão, essa foi a última neve a ser derretida pelo sol.

Esta fábula é para os humildes, pois eles serão exaltados.

Leonardo Da Vinci
(Fábulas, Atl. 67 v. b.)



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